Quais as semelhanças em perder de 1 x 0 para o Peru e os 7 x 1 da Alemanha?

O psicólogo esportivo Gustavo Korte comenta os recentes vexames da Seleção Brasileira

O psicólogo do esporte, Gustavo Korte, faz um questionamento importante sobre o atual momento do futebol brasileiro: “qual a diferença e semelhanças em perder de 1 x 0 para o Peru e os 7 x 1 da Alemanha?”  De acordo com Korte, são muitas as semelhanças. “A mesma forma de agir dos jogadores – ficaram sem resposta, sem saber o que fazer”, relata.

No jogo contra o Peru, em que o Brasil saiu derrotado por 1 a 0 e consequentemente eliminado da Copa América, Korte acredita o grupo brasileiro não esperava que pudesse ser derrotado. “Não souberam o que fazer ao tomar o primeiro gol. No caso do Peru, era um jogo para a Copa América. Foram confiantes demais”, explica. Já no duelo contra a Alemanha, pela última edição da Copa do Mundo, o elenco não esperava que pudesse tomar dois, três gols. “Se desesperaram e não sabiam o que fazer. No caso do jogo da Alemanha, estavam no Brasil e tinham a ‘obrigação’ de ganhar. Muita distração em cima da mídia e familiares. O choro do Hino Nacional, entre outras coisas”, explica Gustavo.

Do ponto de vista da psicologia do esporte, o profissional explica “o que está faltando para a Seleção Brasileira”:

“Em primeiro lugar, o treinador [Dunga, demitido na última terça-feira (14) do cargo de treinador da Seleção Brasileira] não sabe o que é um psicólogo do esporte. Em uma das suas declarações recentes disse que não acredita que um psicólogo pode analisar um jogador em poucos dias. Para esclarecimento: o psicólogo do esporte não faz análise! Ele não é clínico! A função de um psicólogo do esporte, que deveria atuar na Seleção Brasileira, não é a de fazer uma análise psicológica do jogador, porque o seu foco é o rendimento individual e o rendimento da equipe e não o desenvolvimento pessoal. O papel do psicólogo (esportivo) na Seleção é fazer avaliações rápidas, com testes psicológicos e inclusive o uso do biofeedback que permite em cinco minutos, avaliar o estresse, ansiedade e a fadiga. Após essa avaliação podemos ensinar técnicas para administrar o estresse e ou a ansiedade. No caso de fadiga, informar à comissão técnica.”

“Nossa função é também observar o clima de ‘trabalho’ através do relacionamento interpessoal dos jogadores desde o momento que chegam para a concentração até o início do jogo. Comportamentos e atitudes no ônibus, no hall do hotel, durante as refeições, nos treinos e na preleção pré-jogo, ou seja, a cada momento que os atletas estiverem juntos. Quando houver alguma indicação de problema, desentendimento ou mesmo conflito, serão comunicados ao treinador com sugestões para ações. Em casos extremos de conflito, podemos realizar uma intervenção rápida no grupo, se o treinador concordar. Nós trabalhamos a integração, a comunicação do grupo e sugerimos aspectos mentais e emocionais a serem trabalhados durante o treino, como por exemplo: se tomarmos 2 x 0 do Peru ou qualquer outro time, o que temos que fazer? Qual a estratégia que temos que utilizar para nos recuperarmos?”, acrescenta Gustavo.

Para Korte, está claro que não foram feitas essas considerações. “Essa função é a do psicólogo do esporte que sabe os fatores que podem afetar emocionalmente um atleta ou um time. Gostaria de saber se eles já consideraram e imaginaram o que vão fazer se um dos atletas ou um familiar (filho, pai, irmão e mãe, entre outros) falece durante a competição? Pode acontecer! Para serem campeões, os atletas devem estar preparados para tudo”, indaga novamente.

“Não é um ‘engenheiro motivador’ (sem críticas ao profissional – que é um excelente motivador) que foi preparado ou estudou 10-15 anos para entender a mente humana com relação aos fatores que afetam o rendimento esportivo dos atletas. Nessa hora, os atletas precisam de um psicólogo do esporte e não de um motivador. O motivador trabalha o antes do jogo. O psicólogo trabalha o processo: antes, durante e depois. O psicólogo é o assessor do treinador com relação aos aspectos emocionais dos jogadores ou da equipe. Pode também trabalhar a motivação (se tiver a competência para tal, nem todos tem o perfil motivador)”, explica Gustavo.

Na visão do psicólogo, essa derrota é uma oportunidade para se refletir sobre a importância de outros aspectos do treinamento, que estão faltando. “Gostaria de promover uma crítica construtiva. Respeito todos os profissionais que trabalham com futebol e na CBF, porém, está faltando ainda um aspecto a ser trabalhado, e agora está claro que esse aspecto pode ser determinante”, completa.

Gustavo Korte é psicólogo, formado pela PUC/SP. Mestre em Pesquisa em Psicologia da Atividade Física e Saúde pela Universidad Autonoma de Barcelona, Espanha; Doutorando pela University of Jyvasklya, Finlândia; possui dois cursos de pós-graduação em psicologia aplicada ao alto rendimento e psicologia em idade escolar.

Foto: Rafael Ribeiro / CBF

 

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